"poemas"
por Herberto Helder.

      

 

 

Poeta y prosista. Nació en Madeira en 1930

Essa cidade, gota sombria

Quería tocar la cabeza de un leopardo loco, su lujo
mandibular. Sentir que los dedos se volvían
de granito. Sentir que la deslumbrante
resaca de pelo
bajo me arrebataba furiosamente los cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Una estrella voltaica.
Y tragarla. Y que de pronto toda aquella púrpura nocturna
entrara dentro de mí, de la mano a la cara.
O una herida que me cogiera de pierna a pierna.
Que entrara en mí
la fábula de la demencia y de la animal
elegancia. Sé que la sangre me puntúa, y me estremezco
de poro a poro
con tanto oro sudado que me envenena.

Sé que toco.
Que hay una combustión en las partes sexuales
de mi muerte. Y si miro ese espejo exhalado
de mí mismo, veo
perlas, la anestesia de las perlas. Pero
el fósforo se precipita donde
se enfría la carne, y se vuelve ligera. Y un dolor
instrumental, mi propia música
descubierta, me atrapa como el sonido atrapa
los tubos de un órgano.

Y entonces ninguna razón me oscurece más allá del crimen,
de la metáfora directa
de un leopardo alunado como una joya. Y él levanta
su constelación craneal. Su boca avanza, límpida
llaga
hasta mi rostro. Y en este espejo de las cosas de repente
unidas todas, me besa por dentro hasta
el corazón.
En el centro.
Donde se muere el silencio central
de la tierra.

[de Última ciencia, 1988]

 

La carta de la pasión

Esta mano que escribe la ardiente melancolía
de la edad
es la misma que se mueve entre las fuentes de la cabeza,
que a la imagen del mundo abierta de sien
a sien
aviva la suntuosidad del corazón. La demencia labra
su quemadura desde sus recesos negros
donde
se forman
las estaciones hasta la cumbre,
en las sedas que fluyen con la anchura
fluvial
de la luz y la espuma, o de la noche y las nebulosas
y el silencio todo blanco.
Los dedos.
La montaña de desplaza sobre el corazón que se alumbra: la lengua
se alumbra: La miel oscurece dentro de la vena
yugular tallando
la garganta. En esta mano que escribe se sume
la luna, y de alto a bajo, en tus grutas
oscuras, la luna
teje las ramas de una sangre más salada
y profunda. Y el marfil madura en la tierra
como una constelación. El día lo lleva, la noche
lo trae junto a la cabeza: esa raíz de hueso
vivo. La edad que escribo
se escribe
en un brazo hincado en ti, una vena
dentro
de tu árbol. O un filón ardido de punta a punta
de la figura cavada
en el espejo. O aun la hendidura
en la frente por donde comienza la estrella animal.
Te quema el espacioso
desorden de las imágenes. Y trabaja en ti
el suspiro de la sangre curva, un alimento
violento lleno
de la luz entrelazada en la tierra. Las manos cargan la fuerza
desde la raíz
de los brazos, la fuerza
maneja los dedos al escribir de la edad, una llama
cerrada, la límpida
herida que me atraviesa desde esa levedad tuya
sombría como una danza hasta
el poder con que te toco. La mudanza. Ninguna
estación es lenta cuando te enalteces en el desorden, ningún
astro
es tan feroz agarrando toda la cama. Los poros
de tu vestido.
Las palabras que escribo corriendo
entre la limadura. Tu boca como un agujero luminoso,
arterial.
Y el gran lugar anatómico en que pulsas como una sábana bordada.
La pasión es voraz, el silencio
se alimenta
persistentemente de miel envenenada. Y yo te escribo
toda
en el cometa que te envuelve las caderas como un beso.
Los días cóncavos, las cuartos anegados, las noches que crecen
en los cuartos.
Es de oro el paisaje que nace: lo tuerzo
entre los brazos. Y hay ropas vivas, el inmóvil
relámpago de las frutas. El incendio tras las noches corta
por el medio
el abrazo de nuestra muerte. La base de las caras
un poco locas
engolfadas, entre las manos suntuosas.
La dulzura mata.
La luz salta a chorros.
La tierra es alta.
Tú eres el nudo de sangre que me sofoca.
Duermes en mi insomnio como el aroma entre los tendones
de la madera fría. Eres un cuchillo clavado en mi
vida secreta. Y como estrellas
dobles
consanguíneas, lucimos de uno a otro
en las sombras.



O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de
                                           [ sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma
                                          [ ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos
                                         [ palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo
                                         [ pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração
                                        [ faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal
                                        [ põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de
                                       [ sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

(...)

          De A Colher na Boca (1953-1960)


EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com
                                        [ folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

          De A Máquina Lírica (1963)

CANÇÃO EM QUATRO SONETOS

(Soneto 2)

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio -

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do
                                        [ vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.

          De Cinco Canções Lacunares (1965-1968)
 

ÚLTIMA CIÊNCIA (1985)

A solidão de uma palavra. Uma colina quando a
                                        [ espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.

.

Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção
                                        [ extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
- Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão
                                        [ fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da
                                        [ terra.

.

Quem bebe água exposta à lua sazona depressa:
olha as coisas completas
O barro enlaça a água que suspira lunarmente
que impregna o barro com a sua palpitação
aluada.
São uma coisa única
e plena: uma bilha. Quem bebe e olha
fica
misterioso, maduro.
Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel.
Quem se dessedenta delira,
vê a obra:
O que se bebe das bilhas que a lua
enaltece - água e nome
na boca.


.

A arte íngreme que pratico escondido no sono
                                        [ pratica-se
em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto.
Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronômica: uma cara
chamejante, múltipla, luxuosa.
Deus olha-a.
E a arte alta do sono fica pesada:
- Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar ardente, obscura, doce de
                                        [ uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inextricável que,
pela doçura, enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata,
mata.

.

O dia abre a cauda de água, o copo
vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação
                                        [ arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.

.

O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela
                                        [ cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada - o canteiro
                                        [ desentranha
outra mão: - A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. - O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.

          De Última Ciência (1985, revisto em 1987)


 



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